Há objetos que quase passam despercebidos porque fazem parte do decorrer dos dias. Um livro, uma embalagem, uma etiqueta, um saco de papel ou uma folha impressa parecem coisas simples, mas por detrás de cada um existe uma história feita de técnica, criatividade, indústria e memória.

É precisamente esse universo, tão próximo e tantas vezes invisível, que a APIGRAF — Associação Portuguesa das Indústrias Gráficas, de Embalagem e de Comunicação Digital apresenta numa exposição em colaboração com a ESAD, patente até 16 de outubro.

Inaugurada a 17 de setembro, a apresentação propõe uma viagem pela diversidade das artes e indústrias gráficas, revisitando a sua história sem perder de vista o presente. Entre livros, revistas, jornais, embalagens, etiquetas, rótulos, artigos de papelaria, produtos de higiene, objetos utilitários e sacos de papel, revela-se um setor cuja presença é discreta, mas omnipresente. Está nas coisas que se tocam, guardam, utilizam e, muitas vezes sem se pensar, integram a memória do quotidiano.

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A história deste universo remonta às grandes transformações provocadas pela impressão. Herdeiras de Johannes Gutenberg e Alois Senefelder, as artes gráficas cruzaram-se também com percursos literários e intelectuais de nomes como Antero de Quental, Teófilo Braga, Fernando Pessoa, William Blake, Honoré de Balzac, Jules Michelet, Pierre-Joseph Proudhon ou Walt Whitman. A exposição recupera assim, processos e objetos, assim como a ligação entre impressão, pensamento e criação.

Para Jorge Lopes, do Gabinete de Atividades Comerciais e Associativas da APIGRAF, a exposição é “uma celebração dos nossos setores da indústria gráfica, da embalagem e da comunicação digital”. Durante a inauguração, explicou que existe uma estrutura comum às diferentes edições, mas que cada espaço permitiu acrescentar uma dimensão criativa própria através da adaptação ao local e do trabalho de curadoria. Nesta edição, esse trabalho contou com Sofia Meira e Rúben Dias, professores da ESAD — Escola Superior de Artes e Design.

A organização por núcleos permitiu acompanhar diferentes aplicações do setor. Há espaço para a impressão de objetos editoriais e para os acabamentos gráficos, mas também para artigos de papelaria, embalagens, etiquetas, rótulos e painéis de interface. Produtos de higiene e utilitários e sacos de papel completam um percurso onde a dimensão industrial convive com a experimentação estética. “É uma panóplia de produtos, de artefactos”, descreveu Jorge Lopes, lembrando que o visitante pode passar de “um livro, digamos, com uma conceção mais luxuosa, artística” para “um simples saco de papel utilizado para transportar castanhas ou frango assado.” Objetos aparentemente distantes encontram-se, afinal, no mesmo território de produção, design, impressão e acabamento.

Um dos elementos “particulares” desta edição é o núcleo dedicado às latas de conserva e às embalagens associadas a esta indústria. A escolha procurou estabelecer uma relação com a história industrial do território. Segundo Jorge Lopes, “o concelho de Matosinhos chegou a ter 52 fábricas de conservas ao longo do século XX.” Através deste núcleo, a APIGRAF homenageia essa memória e mostra como a produção gráfica acompanhou outras atividades económicas, dando-lhes forma e identidade.

A exposição integra ainda fotografias de Paulo Catrica, que aproximam a indústria gráfica de uma perspetiva visual e artística, além de objetos sem impressão e diferentes exemplos de produção e acabamento. O visitante é convidado a olhar não somente para aquilo que chega às mãos, mas igualmente, para os processos que existem antes de uma superfície ganhar imagem, texto ou cor.

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“A parceria com a ESAD estabelece uma ligação entre ensino, investigação, criatividade e indústria.” Durante a inauguração, foi destacado o papel da escola na formação de profissionais ligados ao design e às áreas criativas, competências que encontram aplicação direta no setor gráfico. Sofia Meira, designer gráfica e responsável pela fundação da oficina de Tipografia da ESAD Matosinhos, agradeceu a colaboração, que classificou como “uma parceria muito querida para nós, com a APIGRAF”. Sublinhando que a ESAD é também um centro de investigação, defendeu a importância de aproximar a formação da área da produção e mostrou vontade de continuar a desenvolver novos caminhos em conjunto.

Num tempo em que a comunicação se torna cada vez mais digital, o papel e a impressão continuam a ocupar um lugar concreto na experiência humana. Tocam-se, abrem-se, guardam-se, reutilizam-se e permanecem, por vezes, na memória muito depois de a informação que transportavam deixar de ser necessária. A exposição recupera também a dimensão associativa da indústria gráfica, recordando a Sociedade Tipógrafos Portuenses, surgida no Porto em 1852, e a Associação Tipográfica Lisbonense, criada seis meses depois.

Com os seus diferentes núcleos, objetos e histórias, a exposição propõe, no fundo, um exercício simples: olhar de novo para aquilo que se julgava conhecer. Um livro deixa de ser apenas um livro, uma embalagem deixa de ser apenas uma embalagem e uma etiqueta ganha outra espessura quando se reconhece o trabalho e o conhecimento que existem por detrás da sua existência.

Por Renata Pinho