“PAPEL. Textura, forma, cor. Materialidade autêntica.” As palavras de Susan Castillo chegam como uma nota presa ao início de um pensamento, e não ao seu fim.
Um lembrete. Uma fixação. Algo ainda por formar, que se recusa a permanecer imóvel. Quando visitou a fábrica da James Cropper, no início deste ano, esse instinto tornou-se ainda mais intenso.
“É incrível como uma simples folha de papel consegue cativar por completo a imaginação”, refletiu depois. Ainda assim, há algo de mais insistente por baixo dessa ideia: a sensação de um material que faz mais do que funcionar como uma superfície. Um material que encerra possibilidades.
Susan é fotógrafa de naturezas-mortas e de produto, mas essa designação apenas aflora aquilo que realmente faz. O seu trabalho começa muito antes de levantar a câmara. Começa com a construção, a modelação, os testes, a desmontagem e uma nova reconstrução. Em vez de se limitar a fotografar objetos, cria as condições para que estes se transformem noutra coisa.
“A minha formação académica é, na verdade, em design e artesanato”, explica. “Era cerâmica, algo muito tridimensional.” Essa base nunca a abandonou. Pelo contrário, acabou por encontrar uma nova direção. “Sempre gostei de construir coisas”, continua. “Mas o processo de design não era suficientemente rápido para mim. A fotografia permitiu-me reunir tudo num só lugar: o design, o fazer e, depois, a imagem final.”
O resultado é uma prática que se comporta menos como fotografia e mais como construção de cenários, com um obturador no fim do processo. Os cenários são construídos, desmontados e reconfigurados. Os objetos são tratados menos como temas e mais como participantes. Os materiais não são passivos.
“Gosto de criar uma imagem, em vez de me limitar a captá-la”, afirma. “Caso contrário, não me parece verdadeiramente gratificante.” Essa distinção, criar em vez de captar, atravessa silenciosamente tudo o que faz.

Aprender a linguagem de um material
Para Susan, o papel foi sempre um ponto de partida. Não um fundo, mas uma ferramenta. “Tem tido um papel enorme no meu percurso”, diz. “Sempre me senti atraída por ele. Sou completamente obcecada por artigos de papelaria.”
A frase é dita sem ironia, mas tem peso. Para ela, o papel não é neutro. É responsivo. Dobra-se, resiste, colapsa e mantém tensão. Comporta-se de forma diferente consoante a pressão, a humidade, o peso e a cor. Tem um estado de espírito.
Foi precisamente essa capacidade de resposta que tornou tão estimulante trabalhar com Coloursource™, a coleção de papéis coloridos não revestidos da James Cropper. Produzida na fábrica de Burneside e disponível em 50 cores e três gramagens, a gama assenta na ideia de cocriação, permitindo a designers, criadores e contadores de histórias aceder diretamente ao mesmo legado material que tem moldado a James Cropper há 180 anos. Definido pela cor, pelo peso e pela superfície, é um sistema concebido não para impor um resultado, mas para convidar à interpretação.
“O mais importante era perceber como o papel se transforma tão facilmente”, explica. “Queríamos simplesmente ver aquilo que o papel conseguia fazer.” Não impor. Não dirigir em excesso. Observar.
Na prática, isso significou trabalhar com o material quase como se fosse um colaborador. Permitir-lhe mover-se, assentar e reagir. “Quando se trabalha com um material, é difícil prever o que ele vai fazer”, afirma Susan. “Houve um período em que nos limitámos a explorá-lo, tentando compreendê-lo fisicamente.”
Há aqui uma mudança de linguagem. Não composição, mas navegação. Não execução, mas descoberta. “Foi mais como um esboço físico”, acrescenta, “em vez de um esboço bidimensional. Manipulámo-lo numa escala pequena e depois ampliámos essa experiência para perceber o que seria possível.”
Nada neste processo é limpo ou fixo. O papel enrola-se quando quer. Recusa a simetria. Insiste na gravidade. E é precisamente essa recusa que o torna útil. “O papel tende naturalmente a ondular”, afirma. “É apenas preciso captá-lo no momento certo.”
A cor como energia, não como superfície
Se o papel é a estrutura, a cor é o pulso. É uma filosofia que está no centro do próprio Coloursource™. Na James Cropper, a cor está integrada no fabrico do próprio papel, funcionando como uma linguagem criativa capaz de moldar o ambiente, a perceção e a expressão muito antes de o design chegar à sua forma final.
“A cor ocupa uma parte enorme do meu trabalho”, afirma Susan. Mas, no seu universo, a cor não é aplicada. Está incorporada no comportamento. Altera a forma como lemos uma estrutura, compreendemos o movimento ou percecionamos o peso.
O que a surpreendeu durante a sessão foi perceber até que ponto os dois elementos eram inseparáveis. “A cor traz a energia”, explica. “Algumas formas simplesmente não funcionavam da mesma maneira noutras cores. Não era aleatório. Fazia diferença.”
Essa constatação situa-se algures entre a intuição e a observação, no ponto em que uma decisão criativa deixa de ser apenas estética e se torna física. “Passaram a ser uma e a mesma coisa”, acrescenta. “A cor e a forma desempenhavam a mesma função.” Nada neste trabalho parece decorativo. Tudo é estrutural.

Dentro da fábrica
A passagem do estúdio para a fábrica muda a escala de tudo. Aquilo que começa como uma experimentação controlada transforma-se em algo mais próximo de uma exposição direta ao material. “Estava no meu elemento”, afirma Susan. A escolha da palavra é significativa. Elemento. Não ambiente. Não localização. Algo mais fundamental, mais próximo da origem. É no parque de aparas que a sua atenção se expande pela primeira vez.
“Até as aparas, simplesmente ali acumuladas, faziam-me imaginar cenários, fundos e projetos futuros”, diz. “A minha mente não parava.”
Não existe qualquer hierarquia naquilo que descreve. Folha acabada, resíduos, pasta, fibra… tudo ocupa o mesmo campo criativo. Tudo se transforma em potencial. “Olhamos para uma folha de papel, mas ela tem uma história enorme”, afirma. “Há todo um processo por detrás.” Esse processo está visível por toda a fábrica, mas não da forma que as pessoas poderiam esperar. Não está apenas abstraído nas máquinas. Está distribuído pelas pessoas.
Há um momento que permanece consigo. “Lembro-me de pensar que toda a componente da cor era extraordinária”, conta. “Seria fácil assumir que é apenas uma máquina a produzir cor. Mas não é. Há pessoas por detrás disso. Pessoas que compreendem profundamente o que fazem.”
Essa perceção volta a transformar o material. O papel deixa de ser apenas papel. Passa a ser conhecimento tornado visível. “Percebe-se que estão completamente imersos naquilo que fazem”, afirma. “Isso fica connosco.”
A máquina humana
O que mais impressiona Susan não é a escala, mas o equilíbrio. “Há uma certa humildade no lugar”, afirma. “Não é avassalador. Está integrado numa comunidade.”
Para um espaço detentor de um património industrial que atravessa gerações, não transmite a sensação de ter ficado congelado no tempo. Está vivo. “Percebe-se que não ficou parado”, acrescenta. “Está a evoluir.”
Essa evolução é importante. Não porque modernize a fábrica, mas porque a mantém em diálogo com aquilo que vem a seguir: designers, marcas, criativos e artesãos. A própria prática de Susan ocupa esse mesmo espaço. Entre fazer e interpretar. Entre o controlo e a resposta.
Porque é que o trabalho físico continua a ser importante
Num mundo cada vez mais definido por ferramentas digitais, Susan regressa repetidamente à dimensão física. “Vivemos num mundo em que tudo é digital”, afirma. “A inteligência artificial, o software, tudo.” A pausa não revela resistência. Revela reconhecimento.
“Mas, quando algo é feito fisicamente”, continua, “não há simplesmente nada que se lhe compare.” Tem alguma dificuldade em explicar porquê. Não porque a ideia não seja clara, mas porque resiste à simplificação. “Conseguimos perceber quando algo foi criado fisicamente”, afirma. “Mesmo que não consigamos explicar exatamente porquê.”
É nesse “porquê” que trabalha. As suas imagens procuram preservar essa condição, o momento em que algo ainda se comporta como aquilo que é, antes de ficar completamente fixo.
“Quero criar uma imagem que, naquele momento, esteja tão próxima quanto possível do resultado, explica. “Sem acrescentar elementos que não estavam lá.” É uma abordagem construída a partir da presença, e não da reconstrução.

Para onde seguem os materiais
Se há uma questão que permanece após a visita, não está relacionada com as capacidades do papel. Está relacionada com o seu percurso. “Gostaria muito de compreender melhor para onde vão os materiais”, afirma Susan. “De onde vêm e onde acabam.”
Pensa em termos de ciclos, e não de produtos. De continuidade, e não de pontos finais. Aparas. Reciclagem. Reutilização. Transformação. Há algo neste pensamento que regressa à sua própria prática: a ideia de que nada está verdadeiramente concluído, apenas passa para outro estado. “Poderia ter ficado ali durante dias”, diz sobre a fábrica. “Apenas a explorar.”
Talvez seja essa a versão mais simples daquilo que aconteceu. Não uma artista a visitar um fabricante. Não uma fotógrafa a captar um projeto. Mas uma criadora a encontrar outro sistema de criação e a reconhecer nele o mesmo instinto.
Em muitos aspetos, foi precisamente para partilhar esse instinto que o Coloursource™ foi criado. A liberdade de explorar a cor enquanto material, trabalhando diretamente com o mesmo conhecimento, artesanato e legado papeleiro que têm definido a James Cropper ao longo de gerações.
Nesse sentido, o papel nunca é apenas papel. É um processo. São pessoas. É uma possibilidade à espera de ganhar forma. E, por vezes, basta estar num parque de aparas para ver tudo aquilo em que ainda se poderá transformar.