A escalada comercial entre Estados Unidos e Canadá chegou de forma mais direta às indústrias do papel, cartão e embalagem.
As novas medidas anunciadas pelos dois países abrangem várias categorias de matérias-primas e produtos transformados, com tarifas que chegam aos 50% e que começam a alterar as condições de circulação de mercadorias entre os dois mercados.
Do lado norte-americano, a Administração de Donald Trump decidiu ampliar a lista de produtos canadianos sujeitos a uma tarifa adicional de 50%. As alterações entram em vigor a 15 de setembro e incluem diferentes posições pautais relacionadas com papel para escrita, impressão e outros fins gráficos.
Entre os produtos abrangidos encontram-se determinadas categorias de papel em bobina e folha, papel de desenho e papéis e cartões destinados à escrita, impressão ou outras utilizações gráficas, de acordo com a classificação aduaneira publicada pela Casa Branca.
A medida não corresponde, contudo, à aplicação de uma tarifa geral sobre todo o papel proveniente do Canadá. O agravamento incide sobre categorias específicas identificadas na pauta aduaneira dos Estados Unidos.
Em paralelo, Washington retirou alguns produtos da tarifa adicional de 50%, incluindo determinadas categorias de papel destinadas a utilizações domésticas ou hospitalares.
Canadá aplica tarifas sobre pasta, papel e cartão
A resposta canadiana, em vigor desde 8 de setembro, tem uma dimensão igualmente relevante para a cadeia de valor do setor.
Ottawa aplicou novas tarifas a 27,6 mil milhões de dólares canadianos em produtos provenientes dos Estados Unidos, com taxas entre 15% e 50%. A lista abrange pasta química de madeira, papel kraft, papéis e cartões revestidos e diferentes materiais utilizados para impressão e outros fins gráficos.
Os produtos transformados também estão incluídos. As caixas e embalagens de papel ou cartão canelado provenientes dos Estados Unidos passam a estar sujeitas a uma tarifa de 50%, assim como determinadas categorias de sacos e outros recipientes em papel. A lista inclui ainda envelopes, artigos de papelaria e alguns produtos impressos.
As tarifas aplicam-se aos produtos considerados de origem norte-americana. As mercadorias que já se encontravam em trânsito para o Canadá quando as medidas entraram em vigor ficaram excluídas.
Pressão sobre as cadeias de abastecimento
A introdução simultânea de tarifas dos dois lados da fronteira acrescenta pressão a uma cadeia de fornecimento fortemente integrada.
Estados Unidos e Canadá mantêm há décadas fluxos significativos de matérias-primas florestais, pasta, papel, cartão e produtos convertidos. A aplicação de taxas adicionais pode traduzir-se em alterações nos custos de aprovisionamento, na origem das matérias-primas e nas decisões de compra das empresas que operam nos mercados de impressão, embalagem e transformação.
A nova fase da disputa comercial surge depois de várias rondas de negociações entre Washington e Ottawa sem acordo e de sucessivas medidas tarifárias aplicadas desde agosto.
O conflito ultrapassa, entretanto, o setor do papel. Os Estados Unidos anunciaram também a proibição, a partir de 29 de setembro, da importação de várias bebidas alcoólicas, produtos lácteos e motociclos canadianos, enquanto o Canadá alargou as suas contramedidas a setores como aço, alumínio, eletrónica, equipamentos agrícolas, vestuário e mobiliário.
A evolução do diferendo aumenta igualmente a incerteza em torno do USMCA, o acordo comercial entre Estados Unidos, México e Canadá que substituiu o NAFTA e que tem sustentado grande parte das cadeias industriais integradas da América do Norte.
Para as empresas ligadas ao papel, cartão, impressão e packaging, o impacto dependerá agora não apenas da duração das tarifas, mas também da capacidade dos produtores e compradores para encontrarem fornecedores alternativos ou reajustarem os fluxos comerciais entre os dois países.