Num contexto marcado por incertezas económicas e instabilidade política, o mais recente Barómetro KAIZEN revela uma perceção resiliente por parte dos gestores portugueses, que continuam a apontar caminhos para o crescimento — dentro e fora das empresas.
Apesar de uma conjuntura global mais contida e de obstáculos internos como a escassez de talento e a pressão por práticas sustentáveis, a confiança dos gestores na economia nacional manteve-se estável. A pontuação média atingiu os 12,7 pontos, ligeiramente acima dos 12,6 registados em novembro de 2024.
Impacto político dividido, mas prevalece o pragmatismo
A queda do governo português gerou preocupação entre os líderes empresariais, embora a maioria (59%) acredite que o impacto será apenas temporário. Já 33% dos inquiridos consideram que o clima de incerteza irá agravar as dificuldades económicas, enquanto 5% entendem que a fragilidade da economia é anterior à crise política. Curiosamente, 3% vêem nesta conjuntura uma oportunidade para repensar o rumo do país.
Ainda assim, os dados mostram um setor privado que se adapta. Sete em cada dez gestores afirmam ter cumprido ou superado os objetivos de 2024, refletindo a resiliência do tecido empresarial.
Justiça e Saúde lideram prioridades na Administração Pública
Quando questionados sobre que áreas da Administração Pública mais necessitam de intervenção, os empresários foram claros: Justiça (86%) e Saúde (79%) lideram as preocupações.
Neste debate, surge também uma pergunta provocadora: o setor privado pode melhorar a gestão do Estado? A reflexão ganha atualidade com o exemplo da nomeação de Elon Musk para liderar um departamento de eficiência governamental nos EUA.
No caso português, 38% dos empresários defendem a importância de trazer práticas do setor privado para a administração pública, especialmente no que toca a inovação e foco em resultados. Outros 25% reforçam que essa experiência pode contribuir com mais rigor e eficiência, desde que aliada a um profundo conhecimento do setor público.
A instabilidade europeia no radar das empresas portuguesas
Com a Alemanha a atravessar um período prolongado de desaceleração económica, as empresas nacionais dividem-se quanto ao impacto. Metade dos gestores (40%) considera que a economia alemã terá pouca influência direta no seu negócio; outros 40% mantêm-se atentos, sem medidas concretas. Apenas 20% já agiram: 10% diversificaram mercados e outros 10% ajustaram produtos e serviços ao novo contexto.
No que diz respeito às relações comerciais com os EUA, a possibilidade de novas tarifas sobre produtos europeus também levanta preocupações: 38% preveem um impacto moderado e confiam na capacidade de adaptação; 31% consideram o impacto elevado, sobretudo para setores mais expostos; 15% apontam riscos muito elevados e 16% veem um impacto reduzido ou nulo.
Crescimento e excelência como pilares estratégicos para 2025
Olhar para o futuro com ambição é a linha condutora da maioria dos inquiridos. Para 32% dos gestores, o crescimento é a principal prioridade, seguido da excelência organizacional, mencionada por 27% como fator essencial para sustentar esse crescimento.
A aposta em equipas envolvidas, processos sólidos e alinhamento estratégico com metas de melhoria contínua surge como caminho para um crescimento mais consistente e duradouro.
Tecnologia, eficiência e produtividade: os motores do futuro próximo
A eficiência operacional lidera a lista de prioridades para 74% dos empresários, seguida pela transformação digital (45%) e aumento da produtividade (38%).
As empresas apontam ainda as tecnologias de Automação Inteligente (64%) e Análise Preditiva (56%) como as mais relevantes para acelerar decisões, automatizar tarefas e antecipar tendências.
“Os resultados deste Barómetro demonstram que, num contexto de incerteza económica e instabilidade política, as empresas portuguesas continuam a demonstrar uma notável capacidade de adaptação. A chave para a competitividade reside na conjugação de três fatores essenciais: eficiência operacional, inovação tecnológica e uma cultura de melhoria contínua. Mais do que reagir às mudanças, é fundamental antecipá-las e transformar desafios em oportunidades de crescimento sustentável”, diz António Costa, CEO do Kaizen Institute
A sustentabilidade empresarial também marca presença, com 63% a reconhecerem o seu impacto na rentabilidade, 36% no estímulo à inovação e 35% na melhoria da gestão através de indicadores ESG.
No campo dos recursos humanos, 38% dos líderes empresariais defendem melhores condições laborais e incentivos à retenção de talento, face à escassez de mão de obra qualificada. 47% das empresas afirmam recorrer regularmente à contratação de imigrantes para suprir essas lacunas.
Realizado semestralmente pelo Kaizen Institute, o barómetro recolhe a opinião de gestores de médias e grandes empresas a operar em Portugal sobre temas de atualidade, economia e perspetivas estratégicas. A edição de março de 2025 contou com mais de 250 inquiridos, representando um universo empresarial que abrange mais de 35% do PIB nacional.