A 25 de março, a APIGRAF, Associação Portuguesa das Indústrias Gráficas, de Embalagem e Comunicação Digital, irá inaugurar uma exposição na Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada, no dia em que encerra o Encontro 2025, realizado entre as ilhas Terceira e São Miguel.
A exposição Indústria Gráfica – Impressões que Permanecem é uma mostra que celebra o legado das Artes Gráficas em Portugal e presta homenagem a duas figuras maiores da literatura nacional, que também passaram pelas oficinas tipográficas: Antero de Quental e Teófilo Braga.
Através de primeiras edições e documentos históricos, a exposição revela uma faceta menos conhecida destes escritores açorianos que marcaram profundamente a cultura portuguesa do século XIX, não apenas pelas letras, mas também pelo contributo que deram às artes gráficas.
“Foi com a arte tipográfica que me formei, onde me apoiei para abrir caminho na vida, com ela me achei seguro para garantir o meu lugar ao sol em qualquer ponto civilizado do nosso globo”, testemunhou Teófilo Braga, em 1880, numa conferência sobre tipografia e ciência.
Braga trabalhou na Tipografia J.J. Botelho & Irmãos, em Ponta Delgada, onde imprimiu o seu primeiro livro, Folhas Verdes (1859). Mais tarde, trabalhou também como tipógrafo no Porto. Já Antero de Quental iniciou a sua aprendizagem de compositor tipográfico na Imprensa Nacional-Casa da Moeda, em Lisboa, em 1866, antes de partir para Paris. Lá pretendia seguir os passos de autores-tipógrafos como Michelet, Proudhon e Balzac, mas a experiência revelou-se breve — como escreveu Eça de Queirós, pois “o artista, o fidalgo, o filósofo que em Antero coexistiam, não se entenderam bem com a plebe operária”.
A exposição apresenta exemplares raros, como a primeira edição de Os Sonetos Completos (1886), de Antero, impresso na Tipografia Ocidental de Costa Carregal, no Porto. Em destaque está também a segunda edição de Folhas Verdes, impressa na Imprensa Portuguesa de Anselmo de Morais — ambas as tipografias associadas aos primeiros movimentos do associativismo gráfico em Portugal e hoje associadas da APIGRAF, entidade promotora da exposição.
Além do seu valor bibliográfico, a mostra assinala também o simbolismo de um reencontro entre os dois autores — que, segundo registos históricos, se separaram definitivamente nos escritórios da Imprensa Portuguesa no início da década de 1870, após terem estado unidos na célebre Questão Coimbrã.
A exposição estará aberta ao público em Ponta Delgada por tempo limitado, e é uma oportunidade rara de explorar o cruzamento entre literatura, história gráfica e memória açoriana.