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Atualizado a 21 Mar, 2019

Faturação eletrónica: os problemas do Greenwashing e do Technotrash

Futuro

(Artigo de Opinião)

Num comunicado da agência Lusa e numa notícia do Expresso, tive oportunidade de ler que a associação ambientalista Zero - Associação Sistema Terrestre Sustentável – fez uma análise do impacto ambiental de uma medida anunciada pelo Governo, que implica que todas as faturas deverão ser eletrónicas a partir de 2019. Refere a associação que isso seria o equivalente a eliminar três mil toneladas de dióxido de carbono por ano.

A mesma notícia refere que o “fim das faturas em papel poderá significar menos 281 mil árvores cortadas por ano, o equivalente a uma floresta do tamanho de 281 campos de futebol”. Cálculos “grosseiros”, diz a associação, baseados numa estimativa de que “o tamanho médio de uma fatura é A5 e que o papel tem 75 g/m2", o que significaria "281 mil árvores poupadas por ano”, o equivalente a 281 campos de futebol, considerando a ocupação de “mil árvores por hectare".

Em relação à poupança de água, a medida equivaleria a uma poupança de 281 milhões de litros de água por ano, o equivalente ao consumo de cerca de 4.100 habitantes, assim como à redução de 43 GWh (gigawatt-hora)”, o que seria equivalente a "0,1% do consumo de eletricidade”.

“Mas és contra a proteção do ambiente?”, perguntam-me. Não. Aliás, sou completamente a favor, porque quero que os meus filhos – e todas as gerações futuras – tenham o privilégio de viver em harmonia com a natureza e usufruir do melhor que o nosso planeta tem para dar. E admito que, como em qualquer outra indústria, haverá certamente questões a resolver e processos a melhorar. E por ser a favor da proteção do ambiente sou a favor da utilização do papel e do cartão.


O consumo de papel significa a plantação de mais árvores sendo que, só na última década, a gestão florestal responsável levou à plantação de mais árvores, que armazenam e reciclam CO2 da atmosfera. Foi plantada uma área equivalente a 28 000 campos de futebol por ano. Se não é possível que a indústria se mantenha sem a utilização de árvores, como é que iria contribuir para o seu fim?

Mais de 70% da energia utilizada pela indústria papeleira provém de energias renováveis, estando acima da média europeia nessa matérias. A maior parte é proveniente da biomassa florestal, uma fonte de energia renovável. Aliás, existiriam muitos mais pontos a acrescentar, mas passemos ao grande problema da informação que tem sido veiculada.

O greenwashing e o technotrash

Todos temos em mente as imagens das ilhas de plástico do pacífico e dos animais que perdem a vida ou sofrem alterações genéticas à conta do lixo causado pelo plástico e pelo chamado “technotrash”.

Residuos Eletronicos



Cada um de nós utiliza cada vez mais equipamentos eletrónicos e serviços de cloud, que se tornaram convenientes ou até indispensáveis, à medida que entramos na dita Indústria 4.0. Para dar suporte a tudo isto é necessário haver, por exemplo, a instalação de gigantescos data-centers, que armazenam quase tudo o que fazemos online. A Greenpeace estima que, se comparada com a utilização de eletricidade de todos os países no mesmo ano, a cloud ficaria em 6º lugar no mundo, sendo esperado que o consumo aumente 63% até 2020.

Segundo a Universidade das Nações Unidas, todos os anos são gerados 9 milhões de toneladas de lixo eletrónico de bens como computadores, telemóveis e tablets, que depois acabam em aterros em países de terceiro mundo – ou a formar autênticas ilhas no mar – sem haver o correto processamento desses resíduos. Como já terão tido oportunidade de ver ou ler, são muitos os relatos dos impactos negativos para o ambiente e para a saúde humana.

Os argumentos utilizados nas notícias que andam a circular, sobre o impacto ambiental da utilização da faturação eletrónica, são puro “greenwashing”, a injustificada apropriação de virtudes ambientais para criar uma imagem positiva junto à opinião pública, neste caso sobre uma medida que tem mais vantagens económicas, de gestão documental e processual do que preocupação com o meio ambiente.

Qual é então o verdadeiro impacto ambiental da alteração para a emissão de faturas eletrónicas? Que consumo energético existirá? E de que fontes? Sendo que serão necessários equipamentos eletrónicos para processar todas as faturas, qual o seu tempo de vida útil? E quando essa vida útil terminar, como é feita a reciclagem? É possível fazer-se para todos os componentes? Será mesmo melhor para o ambiente do que a utilização de papel?

Continua a circular muita informação incorreta acerca do impacto ambiental da utilização do papel e do cartão. Se é assim tão mau, porque é que as mais variadas indústrias procuram, no papel e no cartão, alternativas sustentáveis aos plásticos não biodegradáveis ou compostáveis para as suas embalagens?
Prezo todo o trabalho feito em prol do ambiente e da preservação da natureza para as gerações futuras. E conto que a Zero, como outras associações do género, contribuam para a correta informação da população, em prol de uma verdadeira mudança nos comportamentos. Não tenho dúvida de que muitas informações incorretas que circulam acontecem apenas por desconhecimento da realidade.

Quando se trata da utilização de papel ou da utilização de meios eletrónicos, os consumidores devem ser informados sobre os impactos ambientais dessas atividades. Deixo por isso aqui o convite para que façam a desconstrução de outros mitos relacionados com a utilização do papel. Conheçam a Two Sides, porque há sempre dois lados para cada história.

Alice Machado
(Diretora da revista doPAPEL)