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O futuro está no livro!


António Lagarto e João Godinho
Reportagem publicada na revista doPAPEL de Setembro / Outubro de 2017

 

A contrariar as tendências, a Progresso e Vida - Gráfica Almondina, de Torres Novas, continua a acreditar num futuro onde o livro é a principal obra a produzir.

Considerada uma das empresas mais estáveis das artes gráficas, a Progresso e Vida – Gráfica Almondina soma e segue na produção editorial. O livro é o seu principal produto e é aí - ao contrário de muitas empresas do setor que procuram enveredar por outros caminhos – que quer continuar a progredir. “Arranjar clientes editoriais tão bons como aqueles que cá temos. Felizmente os que temos são cumpridores. Tudo o que seja na obra de livro seria o melhor…enfim, crescer esse segmento. Na obra de revista, gostaríamos de imprimir mais alguns títulos”, explica António Lagarto, um dos administradores da empresa, quando lhe perguntamos sobre os planos futuros.
 
A área editorial está em declínio e isso também se notou dentro da empresa que cresceu e se solidificou a servir clientes nesse segmento. João Godinho, também administrador, comenta: “Há algumas editoras que mandam imprimir livros semanalmente. Se há três ou quatro anos mandavam imprimir 1100, 1200 ou 1400 exemplares - com alguns livros especiais a atingir os 2000 ou 2500 exemplares - agora andam a fazer 600, 700 ou 800”. Uma situação que ele acredita que também é derivada de um maior rigor, por parte das editoras, em relação às tiragens, às sobras e às gestões de stock. A Almondina tritura as sobras das edições de alguns clientes e nota-se uma diminuição no número de exemplares que voltam para a reciclagem.
 
“Também fazemos uns milhares de revistas por mês, e quatro a cinco jornais – em sistema folha-a-folha e não em rotativa. Mas fazemos essencialmente livros e revistas”, diz João Godinho. As tiragens das revistas e dos jornais também diminuiu drasticamente nos últimos anos. António Lagarto refere: “Tínhamos um cliente que fazia cerca de 109 ou 110 mil revistas por mês. Agora faz cerca de 58 mil. É praticamente metade”.
 
Interior da Almondina
 
Ainda assim, acreditam que o futuro está no tipo de produção em que se especializaram. Acreditam, essencialmente, na sua capacidade de trabalho e na qualidade do serviço, desde que o cliente entra a porta da gráfica pela primeira vez. “O cliente não chega aqui, larga um CD e recebe um trabalho daqui a quatro dias. O cliente entra, tiramos uma prova, é feita uma revisão e temos tido resultados muito bons. As pessoas agradecem porque, por vezes, pensam que o trabalho está finalizado e nós ainda encontramos várias correções. Depois voltam uma segunda e terceira vez porque têm confiança. Há alguns que deixam a revisão completa à nossa conta”, comenta João Godinho.
 
Quanto à evolução para outras áreas, ponderam apenas um pequeno investimento na área do digital. “Podemos evoluir para algo que esteja muito ligado ao que já temos. Podemos ir para a impressão digital de grande formato – pois só temos até ao A3+ - para fazer uns cartazes e mais algumas coisas, mas não pensamos em outras coisas”, explica João Godinho.
 
CtP
 

O estado da nação


Questionados acerca do atual estado das artes gráficas em Portugal, os administradores da Gráfica Almondina mostraram-se confiantes de que a reestruturação vai continuar. Têm sido confrontados com situações difíceis e admitem não compreender como é possível adotar determinadas práticas. João Godinho diz: “Os clientes reduziram as quantidades, fazem menos títulos, e está a escamotear-se muito os preços. Acho que se praticam preços abaixo do que é necessário para que uma empresa seja sustentável”.
 
A questão dos preços incomportáveis surge com mais intensidade nos últimos três anos. “Nós notamos alguma concorrência desleal. Às vezes deparamo-nos com preços, através dos nossos clientes, que não sabemos como são possíveis”, diz António Lagarto. João Godinho explica: “Há orçamentos que são dados – e os trabalhos devem depois ser executados – que não devem ter margens. Se for para ajudar a cumprir com os encargos salariais, a água, a luz e tudo o que gira à volta desta atividade, que implica muita despesa, eu não compreendo”. 
 
Não é esse o caminho que pretendem trilhar. A empresa é, atualmente, considerada uma das 100 mais estáveis da indústria gráfica. “A estabilidade não é mérito atual. Foi adquirida ao longo dos anos. Felizmente sempre houve gente, nesta casa, que não quis dar um passo maior que a perna e sempre optou por fazer coisas ponderadas”, refere António Lagarto.
 
“Quando somos os proprietários fazemos a gestão de uma outra forma. Mas nós somos gerentes e temos que dar contas ao proprietário. A gestão tem que ser muito rigorosa”, comenta João Godinho. Outro orgulho é também saber que cumprem com os seus compromissos e que são das poucas empresas que ainda conseguem liquidar as faturas das matérias-primas a pronto-pagamento.
 

A importância da modernização


Em 2015, a Gráfica Almondina investiu numa máquina a quatro cores com torre de verniz. “Notamos bastante diferença na produtividade. Nas máquinas que tínhamos, a mudança de plano implicava três quartos de hora, para mudar chapas, afinar a cor…agora com a nova máquina e a ligação informática à pré-impressão, em cinco ou dez minutos temos a máquina a andar”, explica António Lagarto.
 
A nova máquina é a terceira máquina 70x100. “Quando viemos para cá em 1997, chegou a primeira máquina a quatro cores. Passados dois ou três anos veio a segunda máquina a quatro cores – porque antes tínhamos só a impressão a preto – e, em 2015, chegou a nova máquina com a torre de verniz. Temos também uma linha de livro de capa mole, que alceia, cola e apara e temos a linha de revista, que foi atualizada este ano”, diz António Lagarto.
 
Equipamento que é importante para conseguir a qualidade a que habituaram os clientes, que gostariam que tivessem sempre cuidado ao procurar fornecedores de serviços gráficos. A atenção é essencial na leitura do orçamento, na procura do melhor  atendimento, capacidade de revisão e de produção de um trabalho final com qualidade.
 
Fachada da Almondina
 

As origens


A Tipografia S. Miguel, de Viseu, foi comprada por Alberto Dinis da Fonseca, que a trouxe para Torres Novas e começou a imprimir, em 1919, o jornal “O Almonda”. Em 1928, muda de nome para Tipografia de “O Almonda” e em 1947 passa a designar-se Gráfica Almondina, propriedade da sociedade Luz e Progresso, Lda.

Em 1987, a gráfica é trespassada à sociedade Progresso e Vida, pertencente à Diocese e ao Seminário de Santarém. É a 1 de maio de 1997 que se instala na Zona Industrial de Torres Novas, num edifício construído a pensar na sua necessidade de desenvolvimento futuro.  Atualmente, a empresa é administrada por António Lagarto, João Godinho, Augusto Batista e pelo padre Ricardo Madeira.

É conhecida por ser uma das maiores gráficas da Igreja Católica em Portugal. “Temos um cliente, há muitos anos, que produz catecismos, e livros de Religião e Moral”, explica António Lagarto. É um dos clientes mais antigos que também não é imune às questões dos tempos modernos: “A taxa de natalidade tem reduzido e isso também se reflete nas tiragens dos catecismos, que se destinam às crianças. Há alguns anos que as tiragens reduziram bastante”. Foi necessário diversificar ainda mais a carteira de clientes, que conta com algumas das principais editoras do país.
 
No seu corpo de funcionários, a empresa conta com 42 pessoas, sendo que nunca teve que despedir ninguém. “As pessoas vão saindo pela idade”, contam os administradores, orgulhosos da equipa com quem trabalham.